Teste farmacogenético na psiquiatria: como a genética pode ajudar no tratamento com antidepressivos
- Por Dr. Ricardo Martins Ouchi
- Tempo: 6 minutos
Na prática clínica, nem sempre a trajetória de um paciente com antidepressivos é linear. Há pessoas que respondem bem a um medicamento durante anos e, em determinado momento, passam a apresentar novos sintomas, efeitos adversos ou uma resposta diferente da esperada.
Foi justamente esse tipo de situação que me fez olhar com mais atenção para a farmacogenética.
Ao longo da minha prática, aprendi que não basta perguntar qual é o diagnóstico ou qual medicamento o paciente está usando hoje. Eu preciso voltar no tempo: entender quais medicamentos foram utilizados, em quais doses, por quanto tempo, o que melhorou, quais efeitos adversos apareceram e por que determinado tratamento foi interrompido.
No webinar em que participei da GnTech, sintetizei essa forma de pensar em uma orientação que considero fundamental:
“Antes da gente olhar para frente, tem que olhar para trás.”
O teste farmacogenético pode acrescentar informações importantes a essa investigação. Mas ele não substitui a história clínica. Pelo contrário: quanto melhor conhecemos a trajetória do paciente, mais contexto temos para interpretar o resultado.
“Hoje eu tenho certeza absoluta de que, se tivesse tido acesso ao painel farmacogenético desde o começo, o caminho teria sido muito diferente”.
“Hoje eu tenho certeza absoluta de que, se tivesse tido acesso ao painel farmacogenético desde o começo, o caminho teria sido muito diferente”.
Isso não significa afirmar que o exame teria previsto todo o tratamento ou evitado todos os efeitos adversos. A questão é outra: ele teria acrescentado uma informação que poderia ter mudado a maneira como eu avaliava algumas possibilidades terapêuticas.
Sumário
O que mudou no tratamento com o teste farmacogenético
Quando recebi o resultado, não olhei apenas para uma lista de medicamentos.
Integrei os dados farmacogenéticos com informações farmacocinéticas, farmacodinâmicas e, principalmente, com o histórico clínico do paciente. A partir dessa análise, consegui avaliar o laudo do teste e para explicar ao paciente o raciocínio utilizado nas próximas decisões.
Para mim, essa é uma diferença fundamental.
O teste não deve responder sozinho “qual remédio usar?”
Ele acrescenta informações àquilo que já sabemos sobre aquela pessoa.
Se um paciente já utilizou cinco medicamentos, por exemplo, cada experiência anterior contém dados: Houve benefício? Em qual dose? Por quanto tempo? Houve náusea? Sonolência? Apatia? Queda de libido? O medicamento foi usado sozinho ou associado a outro?
Expliquei que gosto de revisar exatamente essas informações: medicamento, dose, tempo de tratamento, efeitos colaterais, benefícios, combinações e motivo da suspensão.
É quando cruzamos esse histórico com a farmacogenética que podemos encontrar convergências e divergências e construir hipóteses mais individualizadas.
Laudo do teste farmacogenético
Durante o webinar, mostrei que mesmo uma classificação como “usar conforme bula” não significa “use este medicamento”. A decisão ainda precisa fazer sentido quando confrontada com a história clínica, os sintomas que queremos tratar e o mecanismo de ação daquela medicação.
Da mesma forma, uma sinalização de atenção não significa necessariamente que determinado medicamento seja proibido.
O resultado precisa ser interpretado.
É por isso que gosto de pensar no teste farmacogenético como uma ferramenta que ajuda a refinar o mapa terapêutico, não como um sistema automático de prescrição.
Teste farmacogenético é medicina de precisão, não medicina automática
Eu vejo a farmacogenética como parte de um movimento maior em direção à medicina de precisão.
Diretrizes e protocolos continuam sendo fundamentais. Eles mostram o que sabemos sobre grupos de pacientes. Mas, quando estou diante de uma pessoa específica, preciso combinar esse conhecimento com as particularidades daquele caso.
Foi também por isso que, no webinar, não defendi a realização indiscriminada do teste para todo paciente já na primeira consulta. A utilidade precisa ser avaliada caso a caso, levando em consideração histórico clínico, complexidade do tratamento, acesso ao exame e o quanto aquela informação pode efetivamente contribuir para a tomada de decisão.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas “qual medicamento o meu teste indica?”.
Talvez uma pergunta mais adequada seja:
“O que essas informações genéticas acrescentam àquilo que meu médico já sabe sobre mim e sobre minha resposta aos tratamentos anteriores?”
É nesse cruzamento entre genética, história clínica e acompanhamento que a farmacogenética pode ganhar significado para cada paciente.
“O estudo da farmacogenética é também uma grande oportunidade de revisarmos um caso como um todo, seja um caso novo ou já cronificado.E não apenas para responder à pergunta “qual o remédio certo?”, mas para nos obrigar a treinar e aprimorar a nossa capacidade de fazer perguntas melhores. Porque, no fim, mais do que simplesmente encontrar respostas ou identificar o medicamento certo, o que buscamos é construir a estratégia correta para aquele paciente.”
Teste farmacogenético: uma bússola para um tratamento mais individualizado
O principal aprendizado é que o teste farmacogenético não substitui o raciocínio médico, ele acrescenta informação a esse raciocínio.
Histórico de tratamentos, sintomas, efeitos colaterais, outras condições de saúde, estilo de vida e perfil genético podem ser analisados em conjunto para construir uma estratégia mais individualizada.
Se você utiliza antidepressivos, já apresentou efeitos colaterais ou passou por diferentes tentativas de tratamento, converse com seu médico sobre o papel que a farmacogenética pode ter no seu caso.
Quer saber mais sobre como funciona o teste farmacogenético? Conheça as opções da GnTech e leve essas informações para conversar com o profissional que acompanha o seu tratamento.
O teste é realizado a partir de uma amostra de saliva, coletada de forma simples e indolor. O material é analisado em laboratório para identificar variações genéticas que podem influenciar a resposta do organismo a determinados medicamentos.
O valor pode variar de acordo com o laboratório, a quantidade de genes e medicamentos avaliados e a abrangência do teste. Por isso, é importante consultar diretamente a empresa que oferece o exame para conhecer o preço atualizado.



